36-23-NQ
Pode um carro ser uma espécie de animal de estimação?
Começo este texto alertando os leitores de que o mesmo se revestirá de lamechice parola. Pelo que, caso não goste, seja alérgico ou tenha reações descompensadas a situações de lamechice parola, o melhor será mesmo trocar esta leitura por outra mais alinhada com os seus sentimentos e interesses, como são exemplo a proliferação de unicórnios e a transformação do pólen em mel.
Entreguei o meu carro para abate. Começo assim, de chofre, com o motivo da minha dor. Não há suspense, não há surpresas. Este texto conta a história (de forma um tanto resumida e desorganizada) deste veículo que ocupou vinte e um anos da minha vida e que tantas vezes (até à última libertação de CO2) me pareceu possuído pelo espírito de uma pessoa que eu caracterizaria como bacana.
Quando a vida nos sorri poucas vezes a liberdade parece uma miragem e, a mais pequena seta que nos aponta nessa direção, é como um carreiro no deserto que nos levará ao líquido milagroso (que, neste contexto, não é vinho); compreendo hoje que, exatamente por essa razão, era fundamental para mim tirar a carta de condução (inscrevi-me logo que fiz dezoito anos) e ter um carro. Podemos chegar a sítios de qualquer forma, a pé, de bicicleta, de autocarro, o que for; mas não me lixem, ter o nosso cavalo estacionado para nos levar para onde queremos estar e, mais importante, para longe de onde precisamos fugir, é uma sensação tremenda.
Depois de ter tirado a carta não tinha dinheiro para comprar um carro. Foram precisos mais quatro anos, para que, com um emprego estável, conseguisse um empréstimo, de um valor que eu pudesse pagar, para comprar o meu primeiro meio de transporte.
Os meus irmãos puseram os seus conhecimentos a andar e, encurtando detalhes, um conhecido de um dos meus irmãos, que trabalhava num stand, tinha acabado de receber à retoma um Peugeot 206 azul, de cinco portas. Tinha apenas seis anos e estava – segundo ele – em excelentes condições.
Fui conhecê-lo e, antes mesmo de entrar para saber se sequer ligava, já sabia que ia gastar o meu dinheiro com ele.
Lembro-me de, nos primeiros tempos, o conduzir a medo. Não estava habituada a conduzir todos os dias e, o único carro que usara (muito a espaços) era o Peugeot 106 do meu pai que parecia um carro de brincar ao pé do meu (mais alto e gordo).
Era engraçado vê-lo agora, ao lado do Duster, mirrado, parecendo-me pequenino, ele no papel de carro de brincar.
A primeira vez que o levei a algum lado conduzimos até à Costa da Caparica. Fui ver o mar.
A partir desse dia tornámo-nos inseparáveis e era ele que me levava para todo o lado. O meu próprio cavalo. Arrancávamos cedo para ultrapassar o trânsito da ponte, depois esperávamos impacientemente para arranjar um lugar de estacionamento no Green Park, ao final da tarde íamos para a faculdade e, quando as aulas acabavam, já passava da meia-noite, íamos para casa, derretidos, derreados e às vezes derrotados, no limite das forças, sabendo que, no dia seguinte, nos levantaríamos às seis da manhã para fazer tudo outra vez.
Nele estava de um tudo. Uma estirpe de casa/carro. Embalagens de iogurtes, migalhas, maços de tabaco, livros, roupa e até metade das peças de um fondue XPTO que saía numa revista e que comecei a comprar porque uma colega me moeu a cabeça dizendo que me iria arrepender de não fazer aquela coleção (todos temos coisas de que nos envergonhamos nesta vida. Eu não me envergonho de ter sido fumadora, mas envergonho-me do dinheiro que gastei neste fondue). Havia também um pneu suplente de suplente que, por uma qualquer razão, pus na bagageira e nunca mais de lá tirei.
Pouco mais de dois meses depois de o ter comprado uma estúpida bateu-me por trás e deu-lhe cabo da bagageira. Já explico porque digo que é uma estúpida, uma escroque, um monte de trampa.
A tipa trabalhava no mesmo prédio que eu. Bateu-me no carro (uma pancada que me projetou para o meio de outra via e só não fui abalroada por outro carro porque o sinal tinha fechado), saiu do carro aos gritos comigo e, depois de olhar para a traseira do meu carro, disse que aquilo era só um stop partido, ela pagava do bolso, nem era preciso chatear a seguradora. Eu era muito miúda e igualmente imbecil (não tinha era a parte da má índole), por isso fiquei com o número de telemóvel e aceitei não assinar nada. Depois de estacionar, quando fui à bagageira tirar as minhas coisas, percebi que não abria e que o problema era maior. Liguei-lhe e evitou-me, eu que não inventasse que ela não tinha feito aquilo, que a estava a enganar. Foi um filme, até ter descoberto onde ela trabalhava e lá ter ido com um colega de trabalho que a pressionou a assinar a declaração amigável.
(não foi uma peixeirada e não houve coação, só que foi exposto à frente dos colegas dela o que tinha feito e, por vergonha, ela assinou)
Depois disso ainda recebi uma chamada de ameaças do marido que era, também ele, um doce.
Foi quando fui à seguradora entregar os documentos que percebi todo o problema: o carro era da empresa do marido e ela não estava autorizada a conduzi-lo. Por isso iam ter problemas. Mas, como vou tendo soluços de sorte, tínhamos a mesma seguradora e, não querendo ficar mal com uma cliente, agilizaram o processo e depois tratariam com eles.
Este foi o primeiro rasgo de sorte com este carro.
Depois disso, quando estava a ser arranjado, o mecânico ligou-me e pediu-me para passar na oficina. Quando lá cheguei disse-me: no meio da desgraça você teve sorte, a correia de distribuição está quase a partir. Se não tivesse levado esta pancada nem dava conta e quando desse por ela já não tinha carro porque o motor ia à vida.
Ou seja, e só para contextualizar: o conhecido do meu irmão, um tipo “super confiável”, vendeu-me o carro dizendo que vinha com revisão completa, pintura e uma correia de distribuição nova. Só que afinal veio só com a pintura. Compreendem porque amo vendedores de carros em segunda mão?
Nunca tive um acidente com este carro. Nunca fiquei apeada.
Quando fui viver com o meu marido andávamos muito mais no carro dele. Até que, por receio de que o meu começasse a estragar-se por estar parado, passámos a dividir o uso. Com o tempo e por circunstâncias da vida, já com alguma idade, tornou-se o nosso carro principal e, sempre que tinha uma maleita, avariava à porta de casa ou à porta do mecânico. Aconteceu várias vezes.
Como hoje, quando o fui deixar à sua morada final. Mas já lá vamos.
Quando comprei este meu primeiro carro comprei exatamente o carro que queria ter. Não gosto de nada que seja vistoso, não suporto carros de milhões, acho uma grunhice com rodas. Era um Peugeot 206 que eu queria quando o comprei e foi uma felicidade para mim, uma miúda com vinte e dois anos inteiramente dependente de si própria, ter conseguido exatamente o carro que queria (parece que falo de um Lamborghini, mas o que é certo é que não o trocaria, em nenhum dos momentos, por um Lamborghini).
Fui muito feliz e muito triste naquele carro. E não, não tenham ideias, porque nunca me deu assistência a coisas da carne. Até porque eu sempre fui uma pessoa com problemas nas costas e, apesar de os bancos até serem confortáveis, não me imagino a gerir uma caixinha de cinto de segurança a espreitar-me para o rego.
Fui feliz porque vivi momentos muito importantes da minha vida. Conversei muito com amigas, falámos dos nossos sonhos e desamores. Ele sabia mais de mim do que qualquer pessoa. Fui triste quando deixei para trás pessoas de quem gostava e que me magoaram. Ficaram lá, cada vez mais pequenos, no mesmo espelho retrovisor.
Quando o meu filho mais velho nasceu, foi nele que viemos para casa.
Aqui tenho de fazer um intervalo à lamechice para contar uma história hilariante e que é o motivo pelo qual, a matrícula deste meu carro, é a única que sei de cor (entretanto tenho uma carrinha há onze anos que reconheço por um raspão que tem de lado e o carro que está à porta sei que é o meu porque se me chegar a ele com a chave começa logo a abanar os espelhos).
Tinha acabado de sair do trabalho, estava a fazer o turno da noite (nos meses em que não havia aulas fazia muitas vezes este horário) e alguns colegas tinham andado para lá com uma conversa de que a EMEL tinha estado a rebocar. Eu não sabia se o sítio onde o tinha deixado era considerado estacionamento ou não.
Então, conversa vai, conversa vem, chego ao pé do lugar onde acreditava ter estacionado o carro, olho com atenção e digo para as minhas colegas: rebocaram-me o carro.
Seguiu-se aquela conversa típica do tens a certeza, vê lá se não te enganaste no lugar e tal e eu de pé firme, que o tinha deixado ali e ele agora não estava lá.
Fomos no carro de uma delas a todos os parques para onde levam os carros rebocados na área de Lisboa. Não estava em nenhum. Mas, para que os funcionários vissem se o carro estava lá eu tinha de lhes dizer a matrícula. Disse tantas vezes a matrícula 36-23-NQ (com ajuda do documento) que decorei finalmente o nome do meu carro.
Voltámos ao local do crime para mais uma volta porque, se não tinha sido rebocado, só podia ter acontecido o pior: alguém o tinha roubado. Eu, em prantos, numa oscilação tola entre tristeza e raiva, por que raio haviam de roubar o meu carro com tantos carros bem melhores ali?
Quando chegámos ao sítio onde eu jurara ter estacionado, olhei para a matrícula do carro que lá estava e disse: ah, meninas, afinal este carro que eu disse que não era o meu, é, na verdade, o meu carro.
Elas não me mataram porque estavam demasiado cansadas para isso.
E depois de todo este rol de memórias soltas chegamos ao fim.
Há dois meses o meu sogro (que era com quem o meu carro estava há uns anos) levou-o ao mecânico. Era, há bastante tempo, o carro suplente, de desenrasca. O profissional disse-lhe que o que para ali estava de problemas não compensava arranjar já que o essencial, que era o motor, estava a pifar.
O Nuno sabia o afeto que eu tenho a este carro, então quis que falássemos sobre o que eu queria fazer.
Não pensei dois segundos para decidir que teria de ir para abate. Tratei-o como faço com os meus animais de estimação, com a misericórdia que merecia, não lhe cobrando que se arrastasse até ao dia em que, incapaz de mais, se veria obrigado à humilhação de falhar no meio da estrada, impossibilitado de terminar um percurso casa-padaria.
Decidimos levá-lo. Insisti que a sua última viagem seria conduzida por mim. Depois de tudo o que me deu, devia-lhe isso. Seria para mim inaceitável que outra pessoa o deixasse lá.
Seguimos viagem como se nos encontrássemos todos os dias. Conversei com ele. Agradeci.
Quando chegámos à última morada começou a largar fumo e deixou de funcionar. Tentei dar à chave, mas já não pegou. Aquele carro era como eu acredito que sou: capaz por si até ao último suspiro. Espero obter o mesmo respeito do Universo e que os astros, a sorte, as energias ou seja lá que merda for que gere isto, me concedam essa vitória, de chegar ao fim pelo meu pé.
Quando me disseram que tínhamos a receber cento e vinte euros, ri-me e chorei ao mesmo tempo. Até no último suspiro me deu alguma coisa.
Chorei muito, choro agora enquanto escrevo. Logo eu, que não sou apegada a objetos.
O funcionário, vendo-me consternada a tirar-lhe uma última fotografia, perguntou-me se eu queria levar a matrícula. Disse que podia ser, os únicos vocábulos que consegui proferir para não me largar numa choradeira infantil. Trouxemos as matrículas e a chave. Ele ficou lá. Lá no sítio do fim, lá no passado, lá na minha história, de onde jamais será esquecido*.
*a menos que o Alzheimer me apanhe, a gente nunca sabe.
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Senti o mesmo quando fui largar o meu Smart para abate. A minha primeira grande aquisição financeira, o meu companheiro de aventuras de muitos anos.
Tenho tantas histórias com ele, que este teu testemunho impeliu-me a escrevê-las para mais tarde recordar.
O meu filho recusa-se a falar nele, para não chorar. Ele que adora carros, e quanto mais pomposos melhor, não consegue evitar a lágrima sempre que se lembra do nosso "boguinhas" de 6mil euros, em que conseguia ir sentado "à frente".
Belo texto.
Entendo a sensação de apego a um monte de chapas com quatro rodas.
Espero que não se importe mas vou fazer o mesmo.