Cabelos
49
Os grandes pensadores propõem-se a pensar sobre as grandes questões. Temas tão maiores aos quais dedicam uma vida sem conseguir, no fim dessa, responder às tantas perguntas que as grandes questões obrigam a ponderar. No fim, se não ficam na mesma, vão ficando tal e qual. Ocasionalmente há uma epifania, um vislumbre que os deixa compreender um pouco melhor o porquê dos porquês e seguir em frente, inalterados, porque o que os apoquenta são as coisas pequenas, que se lhes entram para os sapatos e teimam em dificultar o andar.
Vai daí e, com esta idade que só teima em avançar, ocorreu-me, num dos muitos passeios a pé que faço, não por desporto, mais por algum gosto e porque os cães gostam de cheirar os postes de variadas funcionalidades; ocorreu-me então pensar, escavar e ir para lá do cerne e da rama da questão das mais pequenas coisas. Para que servem, porque nos apoquentam, porque lhes damos valor, será que são mesmo pequenas coisas e merecerão a atenção e cuidado que lhes atribuímos.
Percebi que me canso demasiado e que me farto ainda mais depressa, por isso não aprofundo, dou um lamiré.
Comecemos, então, pelos cabelos.
E talvez queira começar por aí por ser um elemento da minha fisionomia (podemos considerar o cabelo um elemento da nossa fisionomia?) de que nunca gostei. Para mim, belos, são apenas os cabelos lisos, preferencialmente escuros e densos. De resto todos os outros são pobres desculpas para cabelos, gorros naturais dos menos afortunados.
Eu não tenho tais cabelos. Tenho uma coisa encaracolada, despenteada, desalinhada, mal cortada (por mão própria), fina, em pouca quantidade, meio escondida porque o desalinho tapa o que deveria ser denso. Os meus cabelos são como um limão seco: espremido nem uma colher se enche.
Não pinto, penteio pouco, mas já gastei dinheiro de umas boas férias a tentar convencê-los a existir de outra forma.
Entretanto desisti. Uso champôs baratos, cremes baratos, tudo de última qualidade. Poupo na carteira e no que me custa tentar para ver sempre o mesmo.
Desde que os trato com desprezo, estão melhores. Os sacanas.
Mas a questão mesmo importante é o porquê de darmos tanto valor aos cabelos. Poderia dizer que é uma importância dada em grande medida pelas mulheres, mas não é verdade. Isso vê-se bem pela quantidade de homens que fazem implantes capilares; que, historicamente, usavam/usam capachinho, ou que puxam cabelos de uma extremidade da cabeça até à outra para tentar uma ilusão de que no centro há um matagal de plumagem.
A quantidade de cabeleireiros, produtos, serviços e gadgets dedicados aos cabelos são um mercado que nunca está pela hora da morte. As pessoas queixam-se do preço de tudo, mas não vejo uma pessoa a dizer que a mise agora está cara.
A mise mais não é do que esticar o cabelo.
O cabelo é uma coisa que atrapalha, que obriga a objetos para conter, para não se meter nos olhos ou na boca. Tem de ser ajeitado na almofada e, quando acordamos, demonstra a qualidade do nosso sono. Dói quando penteamos e dói quando desprendemos um elástico.
Porque lhe damos valor? Será só pela beleza?
Não creio.
Digo isto porque me recordo de ver um dos episódios do programa TABU sobre pessoas cegas e, pelo menos uma destas, mulher, tinhas os cabelos longos, lindíssimos. Não era para que os pudesse apreciar.
Faço assim uma constatação com base numa amostra de um elemento. Parece-me suficiente.
O que é que os cabelos nos dão, para que lhes entreguemos tanto valor?
Quando a minha mãe ficou doente e lhe explicaram os efeitos secundários da quimioterapia, recordo-me que não tremeu com a ideia de vomitar durante dias. Foi a queda do cabelo que a atormentou. Quando vemos retratar a mesma doença num filme, qual é o momento mais dramático (tirando a morte, é claro)? O momento em que o paciente, em frente ao espelho, rapa o cabelo.
Gostava de perceber o que é que nos liga assim tanto a esta coisa que só nos atrapalha. Deve estar em algum livro. Ou então está na cabeça de cada um de nós. Literal e metaforicamente.
Um dia, em calhando, vou continuar sem saber.



Sou fascinada por mudar o cabelo! E por observar a diferença de tratamento das pessoas conforme as diferentes formas de me apresentar. O verão passado rapei o cabelo e foi das experiências mais intensas de sempre. Agora fiquei a pensar que tenho que escrever sobre isso 😅😅