Caro editor
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Caro editor,
Começo por agradecer o tempo que escolheu despender na leitura destas minhas palavras, já que, suspeito que a maioria apagou antes mesmo de chegar à terceira letra da palavra Caro. É natural, também eu apago as mensagens que, apesar de entrarem na minha caixa de e-mail como comunicações relevantes, são percebidas por mim como mais tralha para me fartar.
Sou como a Floribela, não tenho nada, mas tenho tenho tudo. São pobre em ouro e rica em sonhos ou lá o que é. Querendo com isto dizer que não tenho prémios, não tenho livros publicados, não trabalhei com os maiores nem conheço os melhores. Não sou aconselhada por pessoas de referência no mundo da escrita, da taberna ou da carpintaria. Monto o que escrevo com a mesma mestria com que completo um puzzle do IKEA: uma parte instruções, outra imaginação. Por isso é que me sobram sempre parafusos.
Mando-lhe em anexo um manuscrito de coisas que me pareceram interessantes e perspicazes, com pequenos detalhes e formas que, arrisco dizer, demonstram pequenos laivos de pensamento. O mais certo é que tenha ficado com essa sensação porque me saíram das mãos, em calhando, se têm vindo de outro sítio, achava o mesmo que o editor: ainda falta comer muitas sopinhas de cavalo cansado. Que é como quem diz: que bem que fica publicado na Gaveta.
Espero que leia pelo menos os primeiros dois contos. São os melhores. Admito que os restantes são tiros no escuro, mas os primeiros….quer dizer, o segundo. O segundo gosto mesmo muito dele, tanto que até fiquei a achar que devia ter ganhado aquele tal concurso. Mas não ganhei. Tive azar, a outra moça era melhor do que eu. Acontece. Não há arvores, quer dizer, papel, que chegue para todos.
Dizem que, para termos mais hipóteses, devemos tentar conhecer alguém do mundo editorial, mas eu não tenho jeito para tentar conhecer pessoas. Vou sabendo daquelas com quem esbarro e vou mantendo o número daquelas com quem gosto de conversar. Não tenho competências para manter contactos e fazer a tal coisa do networking, que é a mesma coisa que dizer que me não dou com gente só porque me pode ser útil. Enfim. Mando os manuscritos assim, para um vazio, um poço digital que tem a mesma frase à entrada: respondemos no prazo de seis meses. Se não o contactarmos pode considerar que a proposta foi rejeitada.
Pode não acreditar, mas clico em enviar por descargo de consciência, para poder dizer que mando, quando me perguntam se tento; porque sei que ninguém vai ler. A menos que mande para aqueles sítios que imprimem e me dão 10% de comissão de uma coisa que eu própria tenho de comprar para vender aos amigos.
Não tenho jeito para impingir nada aos meus amigos. Já são poucos e pessoas de boa vontade, se ainda lhes meto produtos pelo bucho desaparecem-me todos.
Não tenho currículo. É o problema. O meu CV é banal, com uma profissão de nome extenso que se desenvolve atrás de uma secretária. Pico o ponto à entrada e à saída. Trato do jantar, levo os miúdos à escola e o meu passatempo é tratar da roupa. Leio nos intervalos. Escrevo quando roubo tempo aos afazeres.
Apercebo-me agora que o Chico Buarque nunca veio cá a casa. O Peixoto também nunca veio cá a casa. E o Saramago não me deixou elogios. A única pessoa que escreve e vem cá a casa é o senhor da EDP, mas mesmo esse não quer entrar, diz que faz a contagem do lado de fora do muro.
Por isso é como vê, caro editor. Isto não tem caminho para vendas. Se eu ao menos tivesse um nome em condições, mas nem isso.
Já macei que baste, agora vou trabalhar noutra história que possa ser rejeitada. É um entretém. As histórias enjeitadas fazem-me alguma companhia.
Até breve.

