Coragem
É descrita como a postura de se manter firme diante de riscos ou perigos, incluindo bravura e valentia.
Nos últimos tempos, em resultado do meu atrevimento literário, têm-me falado em coragem. A coragem que eu tive. Sei que o dizem – e importa referir isto – de forma elogiosa, como maneira de identificar uma certa bravura nesta coisa de pegar em algo que ninguém quis e dizer: eu cá gosto, por isso vou mostrar-lhe a luz do dia, mesmo que seja criticada, gozada, ridicularizada. Mesmo que toda a gente deteste e comprove, com mais evidências do que já tinha, que nunca deveriam ter saído da gaveta.
Acontece que eu já vi coragem a acontecer à minha frente e por isso tenho dificuldade em associar valentia a esta decisão. Talvez a categorizasse de desplante. Tive o desplante de avançar sem estar suportada da forma que seria de esperar.
Coragem teve a minha mãe, que criou quatro filhos sempre agarrada a uma máquina de costura e contou tantas vezes os tostões para que não nos faltasse o essencial, que viveu metade da vida em ditadura, que fez a quarta classe com sorte, que teve uma força indescritível perante a doença. Coragem tiveram as minhas tias, as minhas avós, que mal conheceram uma realidade de verdadeira liberdade, que perderam filhos, que mandaram filhos para a guerra. Eu tive apenas o descaramento de usar meios e mecanismos que estão ao alcance de todos para seguir com a minha vontade.
Nada na minha vida altera se correr mal esta ideia. A saúde dos meus filhos fica igual, a minha casa é a mesma, o meu marido (se me deixasse seria por outras razões já que há, no mundo, parecendo que não, gajas mesmo boas), a minha saúde fica como está, o meu emprego também, vou de férias para o mesmo sítio e os meus cães continuam a não ouvir nada do que lhes digo tal como já acontecia. E estes factos assim se mantém, inalteradíssimos, corra esta ideia bem ou mal. Por isso não há nada a temer. Ah, mas podes descobrir que aquilo que escreves não presta mesmo. Pois então que o comprove indiscutivelmente da forma mais rápida possível, em vez de acalentar eternamente esta possibilidade de que, de facto, consigo pôr uma palavra a seguir à outra e caminhar por uma frase.
Todos os dias receio que tenha sido má ideia, que me engane a mandar as coisas para as pessoas, que fiquem furiosas à primeira gralha, porque a revisão foi feita só por mim (relembro, isto é, um one silly woman show). Quero receber feedback e, ao mesmo tempo, não quero. Porque pode ser mau ou porque as pessoas podem querer ser só simpáticas e eu não gosto de sentir que estou a condicionar os outros a dizer coisas boas. Por outro lado, não sei lidar com palavras bonitas, com elogios, com o afeto que sinto sempre não merecer.
Esqueçam a coragem, essa tem sítios para estar. É só preciso respirar fundo e perceber que aquilo que realmente importa é tentar. O resto logo se vê.
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Nem mais, 100% de acordo!