Semana 3, Junho, 2026
Anotações, pensamentos, receitas, leituras falhadas e pouco mais porque foi uma semana igualmente pobre em termos intelectuais, culturais e cognitivos

Anotações
#1 Sinto que, quanto mais falo, menos me ouvem. Por isso tenho experimentado o silêncio como alternativa de comunicação. Não sei se está a resultar para os outros, mas tem-me sobrado algum tempo. Um suspiro demora menos tempo do que explicar o detalhe do que ninguém escuta.
#2 Para a minha filha não há pessoas velhas, idosas ou na terceira idade, há apenas avôs e avós. Este é o conceito de velho que ela tem. Quando vê um velho torna-se imperativo saber de quem é avô e se é avô de alguém que ela conhece. Estava (ela) a ver as fotografias que tenho no telemóvel e deu com um print que tirei a uma das newsletters. No topo estava a pintura de uma velhota. Primeiro perguntou-me se era a minha avó. Não sendo minha avô, era preciso investigar quem eram os netos desta pessoa.
#3 Gosto de ver a minha filha quando anda a chafurdar na galeria de fotos do meu telemóvel, porque mais cedo ou mais tarde ela vai dar com um vídeo dela própria, filmado há uns quatro ou cinco meses, e dirá: olha para mim tão fofa e pequenina. Como se agora fosse uma mulher de meia idade com sete filhos para criar.
Bom, para ser franca, ela já tem alguns filhos, tem o Elmo, o Yochi (quando o encontra) e tem um Nenuco cheio de traumatismos cranianos que resultam das vezes que ela lhe acerta com a mona na ombreira da porta. Por acidente, com é evidente, já que o leva pelo calcanhar, como Aquiles.
#4 Primeiro jantámos no quintal. Depois almoçámos no quintal. Ao fim de dois anos e meio começámos a comer no quintal.
Este ano deixei as ideias grandiosas de lado e comprei um rolo de 5×2 de relva sintética. A mais barata do mercado, cerca de 30 melreis o rolo. O quintal ganhou outro aconchego. Com a relva a fingir, trouxemos uma mesa de quintal. A mais barata. Abana muito. Trouxemos também cadeiras. As mais baratas, não podemos pesar muito. Trouxemos em conta porque somos forretas, porque não se usam o ano todo, porque as mais caras não parecem tão melhores, porque o dinheiro tem de se distribuir por tudo. Trouxemos as mais em conta porque somos assim, pessoas de comprar o que é mais em conta. Quando o miúdo diz, ah e tal a mesa abana um bocado, eu respondo, eu também abano que se farta e ando cá há 43 anos. Não tem mal, não é que estejamos à espera de receber as Patrocínio, não me parece que elas tenham assunto para nós.
É, assim, engraçado que um detalhe tão pequeno, tenha feito uma grande diferença. Deve ser uma Borboleta a dizer que as grandes alegrias estão nas pequenas coisas e tal.
#5 No domingo fui fazer uma caminhada e vi tantas borboletas que fiz um vídeo. Gravei para provar que não tinha ficado insana. Ao lado do Continente aqui da zona há umas flores amarelas cujo nome desconheço e, quando estava a passar por elas, vi dezenas de borboletas em torno destas flores. Acho que já não via tantas borboletas há anos. Fiquei encantada. Gosto de borboletas como uma menina pequenina.
#6 Rever o manuscrito está a custar-me mais do que imaginava. Noto, ao relê-lo depois de quatro anos, que há tanta coisa que pode e deve ser melhorada. Sei que vou eliminar muitas partes e que vou reescrever outras tantas. Querer ser escritor, constato na prática, não se cinge a contar histórias, é preciso aprender constantemente novas formas melhoradas de contar. Aquilo que sabia escrever em 2022 parece-me frágil em 2026.
Não ajuda estar a ler Jamaica Kincaid, que faz tudo à volta parecer pouco.
#7 Se não aprendermos a competência que nos permite conduzir a nossa vida tendo apenas como companhia a solidão (não sempre, mas a espaços), mais cedo ou mais tarde estaremos tramados.
#8 Confesso que estou a fazer um esforço para não subscrever a Prime por um mês só para ver as Patrocínio. Não o faço apenas por princípio, já que aquilo deve ser de morrer a rir. Costuma dizer-se que no melhor pano cai a pior nódoa, mas aqui é caso para dizer que, por dinheiro, atiraram o melhor pano para a pocilga dos porcos, o esfregaram na lama e puseram na mesa. Constato apenas (pelo que vi no Extremamente Desagradável) que, se o império Vieira de Almeida dependesse desta geração da família, nem uma padaria tinham.
#9 Não sou adepta de futebol. Não percebo bem o desporto, nem sei o que é o fora de jogo e nem sei o nome dos jogadores que nasceram depois de 1999. Mas amo o meu bocadinho à beira mar plantado e gosto de ver a minha terra a ganhar coisas. Por isso, se e quando assisto a futebol, só vejo jogos da seleção. Se querem uma prova de que é assim, eu explico: eu achava que o Vitinha era um ex-concorrente da casa dos segredos que fazia um anúncio do Mcdonalds, até que o meu filho, espantado com a minha ignorância, me disse: oh, mãe, esse é o Vitinha! Como se estivéssemos a falar de Pedro Alvares Cabral ou assim. Eu conhecia o Vitinho.
#10 Há uma semana e meia que não acabo de ler um livro e isso está a deixar-me literariamente desorientada.
Iguarias
Trouxe duas laranjas da cesta de fruta do escritório e fiz uma tarte/queijada de laranja. Ficou uma maravilha. Receita da inigualável A pimenta rosa doce.
Coisas que li no Substack e gostei
Eu e o gatinho da outra, o melhor texto desta semana, escrito e publicado no Substack. Autoria da Diana V. Carriço que tem uma eloquência sublime e merece muito ser lida.
Thank you, next da Raquel Costa que resume de forma clara e objetiva o que eu, que sou um zero à esquerda em futebol, acho da prestação do filho da Dolores.
Para a semana há mais uma newsletter e depois estou a planear ir de férias uns mesitos, para fazer uma espécie de retiro doméstico para limpeza digital mas sem os incensos, os piolhos e os gurus que não sabem onde está a caixa. Ou então faço como o Mexia e farto-me de estar sossegada. Às vezes as férias são uma intrujice e posso aparecer na mesma porque eu gosto é de gelados, piscina e de chatear a cabeça a quem está quieto.
Se quiser apoiar o meu projeto de escrita pode comprar o meu livro Máquina de escrever.
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"O filho da Dolores" 😅😅😅😅
Amo o conceito de trazer laranjas da cesta de fruta do escritório para fazer um bolo! Geralmente, quando tirava fruta do cesto, fazia-a passear na marmita até se estragar, pelo que deixei de o fazer.